Ainda não


Abro o armário, inspeciono as gavetas, retiro umas calças onde procuro, em vão, encaixar-me. As ancas impedem-lhes a passagem, o espelho não me reconhece. Ainda não. Desvio o olhar da barriga retalhada, o inchaço a deformá-la, a cicatriz para sempre a recordar o parto que idealizei mas que nunca vou conhecer. Sei que um dia vou fazer as pazes com isso. Mas não agora. Ainda não.

Dois meses se passaram, naquela ambiguidade louca que só o tempo sabe encarnar, onde os dias se transformam em segundos e em que numa hora podem caber vários anos. Há dois meses despedi-me uma vez mais de quem era e ando agora a redefinir e tentar descobrir aquilo em que me tornei. 

Não costumo chorar à frente de outras pessoas. Mas ali, naquele quarto acanhado de hospital, após horas de dor intensa e meses de expectativas, chorei todas as lágrimas, toda a desilusão, chorei os planos falhados, o medo, a angústia, a sensação de fracasso, o esforço em vão, o desmoronar do sonho. Em segundos, tudo ficou desfeito em pedaços. 

Porque de repente o que estava bem deixou de estar. Da noite para o dia uma infeção trouxe febre. O bebé entrou em taquicardia. Houve uma corrida para o bloco operatório. Um corpo sobre o qual não tinha o menor controlo. Um útero que rasgou como se fosse de papel, que foi retirado, remendado, recolocado. O chão tingido de vermelho. E, depois do terror, uma certeza. Os médicos impedem-nos de morrer, mas são os enfermeiros que verdadeiramente nos salvam.

O meu corpo novamente mutilado.

A fragilidade que chega com o pós-parto. Exausta, enfiada numa fralda, emocionalmente instável, o peito disforme a jorrar leite, rasgada de dores, esquartejada. Um dia serão apenas recordações. Más recordações. Mas não hoje. Ainda não. 

A perfeição repousa nos meus braços e o cansaço pesa-me nos ombros, nas costas, na vida. Voltar a ser cama, casa e alimento. Descobrir que é possível ter saudades de pessoas que vivem debaixo do mesmo teto que eu. A culpa materna que corrói. A solidão que se instala de madrugada quando o resto do mundo está a dormir. A privação de sono, conhecida prática de tortura proibida por lei, é a dura realidade de muitas mães. 

E o medo, sempre o medo de não estar a ser o suficiente. 

Às vezes tenho a certeza de que vou sobreviver. Outras, nem tanto. Alturas em que a leveza se sobrepõe ao peso. Outras em que me sinto esmagada por ele. Nos entretantos vou celebrando pequenas etapas. Deixar de sentir dor a cada movimento. Deixar de sangrar. Deixar de dar injeções diárias na barriga. Cada uma delas é uma evolução rumo à normalidade.

Chega sempre aquele momento no pós-parto em que voltamos a sentir-nos a pessoa que éramos, em que simplesmente voltamos a ser nós. Mas esse momento não chegou ainda. O caminho é longo e não conhece atalhos. Ainda é tempo de sarar feridas e não de as celebrar. Não para já. Ainda não.

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