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sexta-feira, 31 de março de 2017

Ex-marido


Faltava pouco para o sol acabar de se pôr. Era apenas uma questão de minutos até o céu alaranjado se arrumar para dar passagem ao cinzento que antecedia a treva. Estava um dia frio de abril, as ruas nuas, as nuvens grávidas de chuva. Deixou que o vento lhe lambesse os cabelos louros durante um bom bocado antes de começar a andar. Andou durante mais de uma hora, andou por andar, sem objetivo, sem rumo, a pisar a noite. Aquele encontro apanhou-a desprevenida. Afinal nem era tão bonita quanto se dizia e não, não era o despeito a falar. Era apenas uma mulher e, tal como ela, ficara sem saber como reagir. Uma mulher que tinha preferido fugir a ouvir o que ela tinha para dizer. Teria alguma coisa para dizer, na verdade? Nem disso estava certa. Doía-lhe a cabeça e o orgulho, pelo que recuou três passos e empreendeu o caminho de regresso a casa.

Mais de vinte anos se tinham passado desde que pousara pela primeira vez o olhar no marido. No ex-marido, aliás. Ainda lhe custava aceitar o prefixo. Ainda lhe doía aquela ausência tão presente. Conheceram-se num verão despreocupado, quase perfeito. Não passavam de dois adolescentes cheios de planos, a desenhar um futuro que tinha tanto de incerto como de excitante. Ele convidou-a para um gelado, ela disse que não. Foi a primeira e única vez que foi capaz de lhe negar alguma coisa. Os anos passaram, ele foi-se deixando ficar. Até ao dia em que resolveu que não voltava mais. Ela não acreditou, ainda não acreditava, mesmo depois de ver aquela mulher à porta do bar continuava sem poder aceitar que desta vez era mesmo diferente.

Serviu o vinho com vagar. Estava há horas a ansiar por aquele momento e o ritual saiu-lhe na perfeição, o líquido espesso a tingir o copo de vermelho, nem uma única gota derramada. O marido não gostava de beber, sempre desaprovara aquela sua fraqueza. O marido, que agora era ex, já não estava ali para a julgar com censuras veladas e olhares carregados de reprovação. Nunca lhe tinha perdoado o que acontecera no casamento do irmão. Do vinho ela passou para o gin e do gin para o microfone do palco, de onde saiu em braços. Ficou dias a fio sem lhe dirigir a palavra, sem sequer a fitar a direito nos olhos. Como seria agora com aquela mulher? Será que também o fazia sentir vergonha alheia ou esse era um privilégio só seu?

Ele nunca quisera um filho. Pelo menos não com ela. A princípio ainda pensou que, com o tempo e a convivência com outros casais e respetivos rebentos, talvez ele mudasse de ideias e lhe desse um bebé rosado e sorridente, gorducho como todos os bebés devem ser, de olhos azuis como o pai. Aqueles olhos aos quais não se conseguia dizer que não. Mas o tempo passou, um ano após o outro e o bebé acabou por não chegar nunca. Agora tinha o ventre seco como uma ameixa e para sempre perdido a ilusão de embalar o seu menino nos braços. Ele atrevera-se a tirar-lhe isso e simplesmente virara-lhe as costas. Sozinha e estéril como um deserto, enquanto aquela mulher destilava juventude por cada poro. E se ele tivesse um filho com ela? A mão tremeu-lhe quando serviu um segundo copo, o vinho sangrou para a mesa, para o chão, dentro dela, toda ela sangrava.

Tinha saído vencedora daquele encontro, tinha-a encarado bem a direito nos olhos, não fora cobarde, não se limitara a dar as costas. Expor o flanco nunca, afinal de contas bebia para celebrar a vitória. A vitória de uma casa de ecos e memórias enquanto algures, não muito longe dali talvez, aquela mulher punha as mãos em cima do seu marido. A vitória de mais uma noite em que acabaria caída no tapete da sala, para acordar enregelada pela madrugada e rastejar até à cama que tinha sido dos dois. A vitória de de sobreviver a mais um dia. Afinal de contas, que mais era a vida a não ser sobrevivência?

O sol já se pusera há muito, agora já só havia trevas e duas garrafas vazias. Quase que sorriu. Talvez fosse boa ideia abrir outra.

sábado, 25 de fevereiro de 2017

A chegar


 Visto o casaco e saio para a rua. Sei exatamente onde o encontrar.

Uma bofetada de vento gelado desarruma-me o cabelo, que se espalha de imediato pela cara e me entra pelos olhos. Uma tarde de inverno a prometer chuva, nem os bêbedos do costume estão no café da esquina. Não sei onde deixei o carro. 
Aperto o casaco, viro à esquerda e descubro-o ao fundo da rua. Bato a porta com força, pouso a cabeça no volante e fico ali um pedaço a tiritar, hesito entre acender um cigarro ou voltar para casa. A solidão funciona já como uma segunda pele, ao fim de uns meses não encontro melhor companhia. As pessoas enervam-me ou enojam-me, não sei bem, talvez um pouco de ambos. Fico a apreciar o silêncio que se escoa pelos minutos até me decidir a rodar a chave na ignição. O motor ronca, roufenho, diz-me que são horas de partir, agora já é demasiado tarde para recuar. Faço-me à estrada mesmo a tempo de apanhar as primeiras gotas de chuva, ainda bem que tenho o limpa para-brisas avariado.


Ainda é cedo, entro no café praticamente vazio e sento-me ao fundo, ao pé da janela. Saboreio o instante de quietude, o sabor amargo da nicotina, a chuva que principiou a cair. Esgotei com ela as palavras que me restavam e por agora nada mais quero dizer. Nem lhe dei tempo para responder, talvez por medo, num súbito acesso de cobardia desliguei o telefone, como se assim pudesse evitar o pior. Não tenho a certeza do que poderá ser esse pior. Nem tenho já a certeza se lhe devia ter dito todas aquelas palavras. Pouco importa agora. Ela sabe onde me encontrar. 

Tremem-me as pernas à medida que me aproximo. Estas ruas, faz tempo que não vinha para aqui, mas ainda lhes conheço o cheiro. Cheiram a serões em frente ao televisor, a domingos preguiçosos, a torradas acabadas de fazer. Cheiram a regresso a casa. E eu estou mesmo quase a chegar.


Olho pela janela, duas, três vezes, torno a olhar, repetidamente, talvez para me distrair, talvez para me certificar que ainda chove. Por aquela porta já entrou um velho conhecido do dono do café, que se arrumou ao balcão, um grupinho que se concentrou ao pé das setas e um casal enfadonho que não troca palavra desde que se sentou. Não há sinais dela. Nunca gostou muito de cá vir. Não apreciava o sabor do café nem se entendia com o dono, aborrecia-a as suas pretensas familiaridades, os seus pedidos de trocas de mesa conforme lhe dava mais ou menos jeito. Parece que a estou a ver a torcer o nariz enquanto remordia baixinho que não voltava a pôr cá os pés. Cumprirá a promessa? Volto a olhar pela janela, mas não é ela que está a chegar. São sarilhos.   

Não gosto de me meter na vida dos clientes, mas às vezes há conversas que não podemos deixar de ouvir. Sobretudo quando são dois tons acima do aceitável. Estou para aqui atrás do balcão a fazer de conta que não dou por nada, mas se não pararem com a gritaria vou ser obrigado a intervir. Gosto dos dois, conheço-os já há alguns anos, mas tenho metade do café de olhos postos neles, a sorte é que isto ainda está a meio gás, é cedo, o pessoal ainda está em casa a digerir o almoço. Eu nem sou de intrigas, mas cheira-me que não era esta a companhia que ele esperava, ou muito me engano ou os dez anos que trago a servir atrás de um balcão dizem-me que isto ainda vai piorar.
 

Parou de gritar e está aqui sentada à minha frente, inconveniente como só ela sabe ser, depois de me deixar os nervos em franja ainda tem o desplante de não arredar pé, de ficar tipo estátua a olhar para mim, só me apetece arrancar-lhe os olhos e pedir-lhe que se cale para sempre. Tenho de ser eu a levantar-me e acabar com este disparate, quero sair para a chuva gelada e esmurrar o vento mas, assim que me ponho em pé, crava-me as garras no braço e sinto a paciência a esvair-se. Preciso de chamar a mim o pouco sangue frio que ainda me corre no corpo para não fazer o gosto aos punhos, afinal de contas não bato em senhoras, ainda que ela de senhora pouco tenha.

Ando às voltas com o carro há uns bons dez minutos e não é por falta de estacionamento, mas sim de coragem. Tão perto já, tão distante ainda. Deixo o carro para trás, a chuva lava-me de todas as indecisões, que importa se me estraga o cabelo. Que mais pode importar quando se tem a vida à espera, ali, ao virar de uma esquina. A solidão que durante anos me queimou prepara-se agora para me abandonar e a cidade chora em despedida. Ainda me tremem as pernas quando atravesso a rua e ali, ao virar da esquina, dou de caras com ela. Só ela e eu, os seus olhos a lerem nos meus sabe-se lá que espanto e desilusão. Agora que finalmente cheguei, está na hora de ir embora.

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

A minha avó






Foi a minha avó que me apresentou ao menino Jesus e me ensinou a rezar. Sentada com o meu primo na penumbra da cozinha e ela, pacientemente, a recitar-nos o Pai Nosso e a Avé Maria, a contar-nos coisas da Bíblia. A minha avó tinha uma fé inabalável. Vestia-se de preto todos os dias, num luto silencioso pelo avô que não cheguei a conhecer. Quando, passados muitos anos, se juntou a ele, escolheu ir de vestido azul. Suponho que quando vamos ao encontro daqueles que nos são queridos, o luto deixa de fazer sentido. A minha avó ia à missa todos os domingos. Por saber que a alegrava, fazia gosto em acompanhá-la. No meu último verão na aldeia disse-lhe tanta vez que ia com ela, as duas estrada fora de mão dada. Não cumpri a promessa. Passaram-se mais de dez anos, mas ainda me odeio por isso. 

Do pátio entrávamos diretamente para a cozinha, que era grande e sem janelas. Tínhamos a luz sempre acesa e, se por acaso a apagávamos, a minha avó refilava porque dizia que a lâmpada gastava muito a arrancar. Era daquelas compridas que piscam um monte de vezes e depois lá se resolvem a acender e esta era para estar sempre acesa. A luz natural coava-se pela porta, vestida de fitas plásticas para não deixar entrar as moscas, mas que não demoviam os gatos de tentar a sua sorte. Da cozinha passava-se para o quarto e depois para a sala, onde a avó tinha o seu altar e eu acesso privilegiado à estante. Ali conheci a Alice do outro lado do espelho, os cartoons de José Vilhena, a história da Sãozinha, a biografia de Jim Morrison e tantos outros, lidos e relidos até à exaustão. De um lado o santuário, do outro a estante. A minha avó sentava-se no sofá e rezava, eu lia ao seu lado.

Os invernos eram sempre rigorosos e passados à lareira. As cadeiras pequeninas, baixinhas, o fogo a arder-me na cara, a entrar pelos olhos dentro. Não havia banheira e a casa de banho – minúscula, com uma sanita e um lavatório sem torneira – ficava da parte de fora de casa. Quando chovia, atravessávamos o pátio numa corrida. O banho era na cozinha, a água aquecida no fogo naquelas panelas enormes, pretas, que mais faziam lembrar um qualquer caldeirão mágico, a bacia azul posta ao pé da lareira que, no Natal, carregava a árvore e o presépio. As músicas estridentes sempre desencontradas, mas a minha avó gostava e, passado umas horas, a gente habituava-se. Adormecia embalada pelo tiquetaque do despertador, matraqueava tão alto que chegava a ouvi-lo nitidamente a dizer palavras, apenas interrompido pelas badaladas do relógio na sala. Quando cresci, quis ficar no quarto lá de fora, onde a coberto da escuridão fumava um corajoso cigarro antes de dormir, rápida e silenciosamente, não fossem as tenebrosas montanhas dar o alerta.

Lembro-me de ir com a minha avó às alminhas, encher as candeias de azeite, tornar a acender as velinhas. De irmos a pé, devagarinho, com a Sagrada Família, para a entregar à próxima casa que deveria recebê-la, cuidar dela, mantê-la segura e alumiada. No Natal, íamos à missa do Galo beijar o menino. Na Páscoa púnhamos ramos no chão a indicar o caminho para o padre ir lá a casa, que tinha sido previamente esfregada e encerada de alto e baixo, a mesa posta com a melhor toalha, os acepipes à disposição, porque o padre podia ter fome, mas não me lembro de ele alguma vez comer grande coisa. A minha avó sim, era muito gulosa e adorava pudim. Aquela vez em que comemos o pudim todo do caminho de casa da tia até casa da minha avó... Voltámos para trás para buscar mais, ora pois claro.

Sinto falta da sopa que mais ninguém sabe fazer ou da massa com bacalhau que tantas vezes comi, do café com leite onde afogávamos bolachas de água e sal, comido antes de dormir, que só me sabia bem lá. Sinto falta dos cheiros, de olhar para os eucaliptos e sentir-me minúscula, de me embrenhar pelos caminhos que levavam ao rio e voltar arranhada das silvas. Das carrinhas que vinham de manhã bem cedo e traziam o pão, o peixe, a fruta. Da excitação que tomava conta de nós quando começavam os arraiais, a que chamávamos invariavelmente de festa, onde comíamos pipocas, algodão doce e aqueles gelados de muitas cores que já não sei onde se vendem – provavelmente não se vendem em mais lado nenhum. A minha avó costumava sentar-se dentro da capela, os conjuntos faziam mais barulho do que aquilo que a cabeça conseguia já aguentar.

Tantas vezes os filhos a arreliavam e eu, miúda, ficava triste porque não gostava de ver a minha avó zangada ou, não raras vezes também, a chorar. Chorava sempre no dia em que voltávamos para Lisboa. Quando lhe dava o abraço de despedida, pedia-me desculpa, entre lágrimas, quando nada havia para perdoar, quando era eu que devia estar a desculpar-me. A última vez que a vi com vida prometi-lhe que voltava para passar o Natal. Lembro-me como se fosse ontem. Estava deitada na cama, encolhida, tapada quase até aos olhos, já tão doente, tão magrinha e eu, estúpida, nem me apercebia do quão mal ela estava. Volto no Natal, avó. Mas eu vou morrer, respondeu-me. Eu vou morrer. Se eu soubesse, se eu pudesse saber. Tão jovem e tão imbecil, incapaz de perceber como é efémera a vida. É inverno e faz tanto frio, mas o maior frio é aquele que vem de dentro. A minha avó dizia sempre que não nos devemos queixar do tempo. Está o tempo que Deus quer, dizia. 

Sou grata pela chuva. Sou grata por existir, aqui e agora. Pela comida que tenho na mesa, pela casa quente que me recebe ao fim de cada dia. Sou grata por não ter perdido a capacidade de sentir. Pelo amor que me rodeia. Pelas pequenas coisas que me fazem sorrir. Sou grata por tudo o que a minha avó me ensinou. Gostava que ela soubesse que eu estava a prestar atenção. Tenho saudades, avó. Espero que no céu haja pudim.

"The pain taught me how to write and the writing taught me how to heal" – Harman Kaur