Cinco anos depois, estou grávida outra vez. Tenho a forte convicção de que um irmão é o melhor presente que se pode dar a um filho. Mesmo quando, numa fase inicial, a reação dele é entrar em negação e dizer qualquer coisa como: "Deixa lá mãe, isso já passa". Ter filhos, com todas as vicissitudes que eles trazem, assemelha-se muito a uma espécie de milagre e de bênção. Conseguir gerar pessoas pequenas e senti-las a mexer dentro da barriga é qualquer coisa de mágico. O corpo das mulheres é incrível, mas nada de ilusões que nem tudo é magia e não são poucas as vezes em que me sinto como se tivesse sido atropelada por um camião, ao mesmo tempo que sinto que sou eu o camião.
Estou mais velha, obviamente, e tenho uma criança que requer muita atenção e paciência, o que torna logo tudo muito mais complexo do que na primeira gravidez. Alturas houve em que nem vomitar pude em paz.
Para mim, o primeiro trimestre foi e será sempre o pior. As náuseas vieram em força e sentia uma exaustão constante, quase como se fosse cair para o lado a qualquer momento. Se bebesse líquidos em jejum vomitava, se não comesse em intervalos regulares também vomitava, se o pequeno almoço me caía mal acabava na sanita. No trabalho ainda ninguém sabia, ou seja, nem me podia queixar, e ainda tinha de me esforçar por disfarçar a barriga, que cresceu o dobro e com o dobro da rapidez. Basicamente foi esperar que o segundo trimestre chegasse rápido.
Porque esse, sim, foi incrível. Os enjoos abrandaram, a energia regressou, o cabelo ficou bonito como nunca antes e voltei a sentir-me um pouco mais como eu mesma. A barriga cresceu bastante mas ainda sem estorvar, o bebé começou a fazer-se sentir, deu-se a notícia a familiares e amigos.
E agora aqui estamos, no terceiro e último trimestre. É uma montanha russa de sentimentos. Há aquela ansiedade e curiosidade para conhecer o bebé, mas ao mesmo tempo sinto que a gravidez está a passar demasiado depressa. É a última vez que estarei grávida e isso traz um misto de emoções. Tenho momentos em que só quero congelar o tempo e outros em que simplesmente me encho de medos. Em que penso que, apesar de já o ter feito uma vez, não vou conseguir de novo. Voltar a ser mãe. Educar duas crianças. Em que é que me fui meter? Não sou capaz. Duvido de mim mesma e ponho tudo em causa, apesar de saber que no fim dá sempre tudo certo. Mas e se não der?
Sei que um dia vou ter saudades desta pança, apesar de parecer o Obélix. O cansaço é real e a fome eterna. E sabem aquele brilho das grávidas de que se costuma falar? Pois eu não faço a menor ideia do que seja. Falem-me, sim, de pés e mãos inchados, da tensão a querer pregar-me partidas, do regresso dos enjoos matinais, falem-me de insónias, das idas constantes à casa de banho, do cérebro feito em puré, falem-me da dificuldade que se torna simplesmente existir. Mas a natureza é sábia e faz-nos esquecer tudo isto. Porque não há nada que se compare à maneira como uma mãe olha para um filho.
Dou por mim muitas vezes a contemplá-lo com um sorriso palerma, a decorar-lhe os traços, a beber-lhe as palavras, aquela vozinha infantil, o constante tagarelar. Consegue bater o espantoso recorde de dizer 'mãe' quatrocentas e setenta e nove vezes em menos de três minutos. E precisa sempre de alguma coisa. Ou tem fome, ou sede, ou precisa que lhe limpe o rabo, ou escolhi a camisola errada para ele vestir, ou está aborrecido, ou teve um pesadelo em que me transformei num T-Rex, ou são horas do banho mas não lhe apetece porque 'é chato', ou não lhe interessa nada do que digo e simplesmente tapa os ouvidos, ou está muito cansado e só quer que o deixe em paz.
É exatamente como dizem, os dias são longos e os anos são curtos. Nos entretantos vou insultando a gata, que dorme alheia a tudo, enquanto lhe digo que é o melhor gatinho do mundo e questiono o que seria de mim sem ela, numa bipolaridade muito própria da gravidez. Se ela soubesse o que aí vem, certamente já tinha cortado as patas em desespero.
É um milagre e uma bênção, sem dúvida. A gravidez, o parto, o maternar, o constituir família. É duro e exigente e desgastante e difícil como tudo. Mas é também incomparável. Pergunto-me muitas vezes que raio terei eu feito de bem para ter tanta sorte.

🥹🩷
ResponderEliminarA anónima sou eu, Pilar 😝
ResponderEliminarTous, mais INCRIVEL! Mal posso esperar pelo Julio 😍
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